O HOMEM E O PÁSSARO

20-06-2019 01:20

Era uma vez um homem com boca de onda e cabelos de chuva. A cara era redonda como os astros, porque a gravidade formatava a sua consciência, na constante viagem da nostalgia. Tinha farrapos de céu no olhar e o tronco era um grande oceano, onde nadavam infinitas memórias. Tinha um pássaro no seu ombro direito, de corpo vermelho e de grande bico amarelo. Todos os dias o pássaro queria voar mas o tamanho desproporcionado do bico impedia-o de o fazer. Permanecia ali, à espera das sobras do homem, olhando resignado a paisagem.

Então o homem disse ao pássaro:

- Também eu queria voar mas a boca prende-me à terra, enche-me o corpo de matéria e desejos. O meu estômago de boi reenvia-me constantemente aos dentes os instintos mal digeridos, arredonda-se e engrandece. Tal como tu, estou preso ao lugar natural, a força dos átomos semelhantes aos meus suga-me a vontade de ser leve. Ajoelho-me, como se estivesse em oração, mas nenhuma divindade me responde. Também eu sou um pássaro eternamente adiado. Por isso o teu bico desmedido trouxe a criança que eu aconchego nos meus braços, como se fosse um sonho, uma ave que voa sem ter asas. Estranhamente interno, pairo nas águas mornas do meu ventre quase útero, quase feminino. O ombro esquerdo, desprovido de pássaro, descaiu e transformou-se no meu próprio filho, idêntico a mim, fruto da minha fome.