ETNA

03-07-2019 02:06

 

 

 

 

 

Sabeis o que é a juventude?

É um caminho estreito, a abarrotar de criaturas que se movimentam no mesmo sentido, e cada uma delas tem a certeza de que o caminho lhe pertence.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Etna

 

 

 

 

 

Dormi inquieto a noite toda, cheio da vontade do amanhecer. O meu bairro está programado para que alvoreça apenas às dez e trinta da manhã, o que não está de acordo com as necessidades e os desejos da maior parte das pessoas que aqui vivem. A comissão de moradores já fez duas petições aos Serviços Municipais do Tempo para que a projecção da luz solar seja feita às nove horas, mas a resposta foi exactamente a mesma: o projector que serve os três bairros desta zona não possui ainda capacidade para funcionar com opções. Esperam ter, muito em breve, um que possibilite a interactividade por rua, o que vai trazer grande contentamento àqueles que querem aproveitar as primeiras horas da manhã para descerem à praia da Abuxarda e gozarem as águas do mar a uma temperatura aceitável. Isto apenas se consegue até às onze horas, porque depois disso a água aquece extraordinariamente, aproximando-se dos cinquenta graus centígrados e tornando-se muito perigosa para a saúde, mesmo com o mais recente modelo de pele, o skin323, que consegue isolar os tecidos de temperaturas até aos cinquenta e cinco graus mas fica muito danificada pelos químicos corrosivos que sobem à superfície do mar e pelas radiações. O meu vizinho do piso dois já teve que mudar três vezes de epiderme por não respeitar os conselhos do Ambiente Amigo, o bio processador que avalia as condições de segurança adequadas a cada indivíduo. 

Levantei-me às oito e trinta da manhã. Meti na boca uma cápsula de café, programada para se desfazer em cinco fases, com intervalos de vinte segundos. É assim que eu aprecio verdadeiramente esta bebida tão antiga e sempre tão agradável. Depois ordenei à minha parede biótica que transmitisse a emissão da Media20, que apresentava as principais notícias da Directoria de Alcabeche. A parede é um modelo muito recente e está colocada ao fundo da sala. Possibilita informação em modo 4p2. Tenho acesso a percepções visuais, térmicas, sonoras e olfactivas. Consigo ainda activar, embora com um significativo dispêndio de energia, sensações tácteis e de gosto. Por exemplo, se alguém está a cozinhar tenho a opção paladar e, focando a área adequada da imagem, recebo os respectivos estímulos. O grau de fidelidade das percepções do ecrã em relação à realidade atinge os oitenta e dois por cento, o que representa um avanço enorme em relação aos anteriores modelos, os w3p, cuja fidelidade não chegava aos cinquenta por cento.

A locutora que apareceu a oralar as notícias é um dos espécimes da etnia humana empatomorfo. Tem as faces perfeitamente simétricas, dois grandes olhos claros com pupilas dilatadas, as sobrancelhas muito subidas, os lábios grossos e vermelhos e um sorriso muito amplo. As palmas e as costas das mãos são praticamente iguais na aparência, para nos darem a sensação de honestidade e confiança. Estas características revelaram-se muito proveitosas para a fidelização das audiências e, por isso, as novas apresentadoras são as mais pretendidas. Estas profissionais são treinadas para serem dirigidas pelos processadores. Antigamente eram as biomáquinas as mais procuradas para a locução mas agora apenas orientam os comportamentos da locutora, pois está demonstrado que um ser totalmente humano pode causar maior empatia e confiança nos espectadores.

Os indivíduos do grupo étnico empatomorfo começaram a ser desenvolvidos há vinte anos, para uma maior eficiência nas tarefas do relacionamento interpessoal, como por exemplo na comunicação mediática. O seu enorme sucesso deu origem a uma explosão de desenvolvimento genético que ameaçou a sobrevivência de outros grupos, mesmo em tarefas para as quais estão mais habilitados. Há uma semana correu uma notícia que escandalizou a opinião pública: uma empatomorfa conseguiu emprego num serviço para o qual existiam vários candidatos com morfologia apropriada e legalmente reconhecida. Os trimanos, que executam facilmente a totalidade das tarefas em causa, devido ao facto de possuírem três braços, foram todos preteridos porque o responsável pela selecção se deixou cativar pela presença da candidata empatomorfa.

Uma das notícias referiu que os cientistas concluíram, na mais recente avaliação, que a água do mar deixará de subir dentro de dois meses. É espantoso como o nível dos oceanos se elevou nos últimos cento e oitenta anos. Mostraram imagens do casario urbano de Cascais que era, há duzentos anos, o centro da região. O mar avançou quase dois quilómetros, até ao nível actual. O dióxido de carbono e o metano aqueceram tanto o planeta que todos os glaciares derreteram. Hoje é quase impossível encontrarmos gelo natural em qualquer lugar da Terra. Tivemos que sofrer adaptações genéticas muito significativas para conseguirmos suportar a percentagem elevada de gases tóxicos na atmosfera. A televisão acabou de mostrar imagens do céu, de dia e à noite, anteriores aos cataclismos. Parece extraordinário que o firmamento fosse azul e que, à noite, pudéssemos contemplar as estrelas a olho nu. Até o mar era esverdeado. Agora é uma sopa morna, lamacenta e ácida. A maior parte da vida nos oceanos é constituída por bactérias, vermes, artrópodes e cefalópodes. Em terra firme, apenas existem mamíferos e outros animais de grande porte em zoos ou em explorações industriais.

Algumas espécies de escaravelho aumentaram imenso de tamanho e estão a proliferar com o actual estado do planeta. Grandes baratas correm velozmente pelas planícies inóspitas, esburacadas e fumegantes do planeta, também elas satisfeitas com as alterações climáticas. Tanto uns como outros desenvolveram, com uma rapidez adaptativa assombrosa, a capacidade de produzirem grandes quantidades de oxigénio a partir de outros gases, de o armazenarem em bolsas esponjosas situadas por baixo do exoesqueleto e de o fazerem circular rapidamente pelo corpo. Com acesso a tanto oxigénio, é provável que continuem a aumentar de tamanho, visto que o alimento também é abundante nos ambientes putrefactos, o seu habitat preferido.

Depois das catástrofes que, quase simultaneamente, há duzentos e cinquenta anos, mergulharam a Terra no desastre, a ciência e a tecnologia salvaram a humanidade, construindo condições ambientais e competências fisiológicas que permitiram a sua sobrevivência. A população baixou para cerca de um bilião de pessoas, depois de ter atingido os dez biliões. Começou a diminuir com as convulsões sociais e a fome devidas ao excesso de pressão demográfica e a sistemas políticos incapazes de controlar a situação caótica em que a civilização mergulhou.

 As probabilidades de um grande meteorito alcançar a Terra e de, quase em simultâneo, explodir um super-vulcão, eram insignificantes. Mas foi isso que aconteceu, arrasando, em poucos meses, o continente asiático e a América do Norte e lançando a Terra no caos e na escuridão. O velho equilíbrio entre os vulcões, a vida e a luz solar desfez-se e nunca mais foi recuperado.

Os principais centros da civilização biotecnológica situaram-se na África e na Europa, liderados por ditaduras muito fortes. Efectivamente, as lideranças directivas conseguiram, durante o período pós apocalíptico, evitar a desintegração completa da espécie humana e prepará-la, mesmo em condições muito desfavoráveis, para avanços surpreendentes. Porém, a sociedade acabou por entrar em novas convulsões, com disputas constantes entre os religiosos e os tecnocratas. Os religiosos culpavam a tecnologia pelos acontecimentos catastróficos. Os tecnocratas defenderam que só o uso dos conhecimentos tecnológicos tinha evitado o desaparecimento da humanidade.

Depois de algumas décadas de domínio dos religiosos, começou a emergir uma corrente moderada, que servia de mediadora. Mas a sedução da novidade tecnológica tornou-se incontrolável.

Foi então que a Lei-de-Xavi se tornou conhecida. Não compreendo muito bem como é que é formalmente enunciada. Sei apenas que, no geral, ela determina uma relação directa entre felicidade e tecnologia. A partir do momento em que um organismo descobre uma tecnologia, esta tem tendência a desenvolver-se segundo uma constante de aceleração, sendo a necessidade de aperfeiçoamento inversamente proporcional ao bem-estar do organismo. A natureza parece servir-se da vida para produzir tecnologia e desta para se transformar mais rapidamente a si própria. Foi assim ao longo da história deste planeta, com a nossa espécie, evoluindo nas diversas eras: da pedra, dos metais, do carbono, dos fluidos, dos quanta…

 A bacteriologia, a ciência dos fluidos, a genética e a nanotecnologia permitiram grande parte dos avanços registados nas últimas décadas. Com as bactérias inteligentes, geneticamente orientadas, podemos produzir uma variedade impressionante de materiais e dominar a própria estrutura atómica da matéria. Elas podem ser utilizadas em todos os domínios, desde a energia até à transmissão e descodificação de dados.

Os genes, por seu lado, são receptores de “ondas-bio”, um tipo de energia de fundo cósmico com origem desconhecida, que tem a capacidade extraordinária de produzir substâncias complexas. Durante muito tempo pensou-se que os genes eram os comandantes exclusivos da complexidade celular. Hoje sabemos que são mediadores cósmicos. Donde lhes chega essa energia é algo que ainda desconhecemos.

A ciência dos fluidos também trouxe novidades técnicas espectaculares. Hoje podemos reproduzir, quase instantaneamente, qualquer realidade perceptiva, capaz de nos fornecer todas as sensações conhecidas.

Desliguei o ecrã da minha parede e preparei-me para sair. O avaliador de radiações aconselhou-me a usar a minha pele da série Skin105pm, porque é mais confortável e clara do que os modelos mais avançados e aguenta, perfeitamente, os níveis radioactivos e tóxicos dos próximos dias. É muito fácil de produzir, não demora mais do que dois minutos a cobrir completa e satisfatoriamente todos os tecidos do corpo.

Antes de sair, olhei-me na parede espelho. Há dois meses adoptei a idade de quarenta e cinco anos. Durante muito tempo tinha mantido a configuração dos trinta e cinco. Porém, como me tornei funcionário do partido Tecno24 e potencial candidato nas listas às eleições públicas, fui aconselhado a acrescentar mais dez anos ao meu aspecto, para ganhar maior credibilidade e inspirar confiança nos eleitores. Se algum dia deixar de ser membro do partido quero voltar a ter trinta e cinco, pois de todas as idades que já experimentei foi aquela em que me senti mais feliz.

Gosto de ser homem. A diferença entre os setupes masculino e feminino é cada vez menor, a não ser em algumas opções mais radicais, que tornam excessivos alguns traços primevos, como a barba e os seios. Sacrifiquei a minha promoção a gestor de primeira, nos Serviços Municipais, porque não quis tornar-me mulher, como era exigido para manter o equilíbrio de géneros nos lugares de chefia. Não estou arrependido, embora ser gestor de primeira dê um aumento significativo no vencimento e no estatuto.

Saí de casa, sentado na minha nova cadeira M55, que me custou quase um ano de poupanças. É um meio de transporte de última geração, que desliza silenciosamente a uma altura de cinquenta centímetros de toda a matéria inferior e a pelo menos quarenta centímetros de todos os objectos laterais. Nunca gostei do modelo anterior, o M54, porque, além de deslizar a apenas trinta centímetros do solo, o que dá pouca visibilidade, tinha algumas descontinuidades magnéticas, que resultavam em pequenas trepidações desconfortáveis.

Àquela hora já transitavam muitas cadeiras na rua. Os modelos mais recentes seguem a norma europeia de segurança, comunicam entre si a uma distância de cem metros, para decidir o melhor percurso e evitar colisões. A decisão é quase instantânea, pelo que não há descontinuidades no movimento. Hoje em dia é muito raro ocorrer uma travagem brusca nas cadeiras por dificuldades em tomar decisões.

Estes veículos citadinos movem-se silenciosamente e sem qualquer poluição, aproveitando simplesmente a energia do ar e a força dos hipermagnetos 13.1, que conseguem sustentar um peso de uma tonelada a, exactamente, cinquenta centímetros dos hipercondutores pintados nas vias públicas.

O ar já estava a ficar quente e irrespirável. Activei o nível dois do meu filtro biológico incorporado. Cheguei ao portão da Câmara Municipal e cumprimentei o Sr. Moura, o porteiro de serviço. É uma excelente pessoa e tem uma boa competência para a produção de alimentos por métodos tradicionais. Nas horas livres ocupa-se de uma estufa, onde faz a cultura de produtos hortícolas, que têm um gosto muito diferente dos que são criados sinteticamente e em série. Embora já quase ninguém tenha o gosto e o aparelho gástrico preparados para este tipo de alimentação, a verdade é que, quando me oferece alguns dos seus produtos, tenho muito prazer em prepará-los e comê-los, embora tenha que usar algumas ajudas químicas para conseguir uma boa digestão das fibras.

— Então gostou das couves? — Perguntou-me.

— Gostei muito. Obrigado por se lembrar de mim.

Há dois dias tinha-me oferecido duas couves reais, verdes e com cheiro persistente. Preparei-as e comi-as, de acordo com a sua receita. Estavam muito saborosas, embora as fibras me tivessem trazido alguns gases intestinais. 

O portão abriu-se. Agradeci ao Sr. Moura e dirigi-me ao fundo, ao parque de estacionamento. Recebi a comunicação visual dos lugares vagos. A cadeira encaminhou-se imediatamente para o lugar mais próximo, de acordo com a minha lista de preferências. Ficou estacionada com bloqueio inteligente, pois tem a capacidade de me reconhecer e de só acatar as minhas ordens.

Orientei-me para o elevador. O Sr. Jacob, o programa ascensorista, cumprimentou-me e pôs a máquina em movimento, para o piso dois. Já ninguém diz “sub”, porque apenas existem pisos no subsolo. Por motivos de segurança, não podem ser construídos prédios em regime de propriedade horizontal acima do solo. O calor, as diferenças térmicas, as tempestades, os tremores de terra, as chuvas ácidas e os gases corrosivos fizeram ruir todos os antigos arranha-céus do planeta.

Saí no átrio do andar dos licenciamentos. O primeiro funcionário que veio ter comigo foi o Perdigão. Escolheu um aspecto sóbrio, conservador, com uma configuração etária de cinquenta anos. Trabalha na tesouraria. Possui braços muito compridos, adequados para chegar a diversos monitores sem perder tempo a deslocar-se. Para uma excelente visão, tem dois pares de olhos, o que dá um ar algo esquisito à sua cara. É exemplar no rigor da sua função. Está constantemente sujeito a reclamações de toda a ordem, mas nunca perde a lucidez e a compostura, falando muito calmamente com todos. Na verdade, costumo dizer que todos os indivíduos com um comportamento semelhante ao dele têm uma personalidade “perdigão”. Trata-se de um modo de ser monologador, que não presta atenção ao que os outros dizem, mantendo quase ininterruptamente o seu discurso. Cala-se, educadamente, quando os seus interlocutores querem falar com ele, mas depois continua aquilo que estava a dizer antes da pausa.

O Perdigão disse que me enviou uma transparência de sensações e perguntou-me se a recebi e se gostei. Respondi-lhe que sim. Então, ele começou a dissecar o significado dos provérbios que, pensava, constituíam o assunto da referida transparência. Disse-lhe que estava a fazer confusão, que os slides tratavam de flores e paisagens. Ele olhou para mim com ar pachorrento e complacente e, quando me calei, recomeçou a falar sobre os provérbios. Desisti de lhe explicar que estava a cair em erro, pois sabia que ele não daria qualquer importância ao que eu dissesse e continuaria a explicar-me os conteúdos da transparência, que julgava ter-me enviado.

Despedi-me do Perdigão e dirigi-me ao gabinete de licenciamento biofísico, do qual sou o principal responsável. É neste gabinete que são licenciadas as alterações fisiológicas e anatómicas requeridas pelos munícipes. Cada cidadão é periodicamente controlado para confirmar se as suas características fisiológicas coincidem com as que estão descritas na sua mini transparência pessoal, um pequeno chip que projecta a configuração pormenorizada de cada pessoa. Um scanner confirma se os traços actuais coincidem com os que constam da transparência.

O Plano Anatómico do Cidadão é o documento normativo que define os princípios e as normas a que deve obedecer qualquer transformação fisiológica dos munícipes, como a configuração da idade e do género. Como chefe de gabinete, coordeno uma equipa de técnicos encarregada de elaborar os pareceres sobre os sobre os pedidos de licenciamento de alterações pessoais. São técnicos especializados em diversas áreas, como pele, genes, bactérias, cirurgia, estética, ética, nanotecnologia…

Mal cheguei, a minha colega Isabel apresentou-me um pedido de licenciamento muito problemático. Uma jovem de vinte e cinco anos quer, por motivos que afirma serem sigilosos e se relacionam com a sobrevivência, alterar o seu aspecto para uma configuração de setenta anos. Nos termos da lei, o requerimento teria que ser liminarmente indeferido, pois não é permitido alterar a configuração etária para uma diferença superior a quinze anos em cada biénio. A norma sustenta-se na experiência de muitos casos em que a transformação abrupta da idade levou a situações mentais muito complicadas e mesmo a uma elevada taxa de suicídios. A única coisa que motiva uma análise mais detalhada está na questão da sobrevivência individual, focada no requerimento. Concordámos que é melhor averiguar a razão que está por trás de um pedido tão estranho, até porque é muito pouco habitual alguém querer uma aparência física superior à dos sessenta anos. Ordenei que fosse marcada uma entrevista com a requerente, a fim de esclarecermos a situação.

Pouco depois, recebi a confirmação da entrevista, para as quinze horas. Dei pareceres favoráveis aos requerimentos que tinha em cima da mesa e conversei com colegas sobre a investigação de alguns processos. Combinámos algumas estratégias e prazos de decisão.

Às treze horas fui, com quatro dos meus companheiros de gabinete, até ao bufete clássico dos Serviços. Estava cheio. Desde que abriu, tornou-se o principal núcleo gastronómico do edifício. As pessoas aderem cada vez mais a esta forma primitiva e vagarosa de almoçar. Ao fim de algum tempo de espera lá arranjámos uma mesa. Sentámo-nos e escolhemos o prato. Pedi um bife com batatas fritas, um alimento que foi muito utilizado há três séculos. O receptor da mesa recebeu os pedidos e pouco depois uma empregada trouxe os pratos, muito bem decorados. Bebi primeiro o soro alimentar. Depois ingeri a pastilha sensorial, que iria desencadear as reacções químicas no meu cérebro, de forma a poder saborear, com a maior fidelidade possível, os alimentos virtuais que, através da tecnologia baseada nos fluidos e na estrutura atómica, tinha no meu prato.

As refeições deste tipo são puramente estéticas, não têm qualquer valor energético pois, na verdade, o bife, as batatas fritas e a salada não possuem nenhum valor nutritivo, porque são simples projecções. Mas são um meio excelente de descontrair e revisitar antigos tesouros sensoriais da espécie humana, que proporcionaram, de modo mais intenso do que agora, oportunidades de convívio e de alegria.

Pedi também um copo de vinho alentejano, frutado, intenso e com um leve odor a carvalho. Também aqui o nível de estimulação é excelente, pois as moléculas libertadas pelo copo dão-nos uma sensação muito próxima do vinho verdadeiro, que apenas pode ser encontrado nas adegas-museu, propriedade do estado, ou em estufas privadas, com custos incomportáveis.

Estávamos a acabar o almoço quando um grupo de jovens, de configurações entre os vinte e os trinta, começou a gritar palavras de ordem à porta do restaurante. Empunhavam cartazes contrários ao serviço gastronómico que ali é praticado, porque este utiliza as imagens da carne de animais, num hediondo atentado ao progresso espiritual da humanidade. “Barbárie não!” gritaram durante cerca de dez minutos, até que a polícia do Município veio retirá-los. Já não era a primeira vez que testemunhava incidentes deste tipo. Talvez os jovens tivessem alguma razão e servir pratos relacionados com a morte de seres vivos, especialmente mamíferos, seja eticamente reprovável e constitua um retrocesso civilizacional. Pode simbolizar o desejo de regresso ao tempo em que a vergonhosa mortandade industrial dos animais alimentava os seres humanos. Não quero que tal aconteça, bem pelo contrário, contento-me com os sabores e a verdade é que me satisfaço imenso com o bife e as moléculas do vinho.

Às quinze horas encaminhei-me, com a Isabel, para a sala das entrevistas. Já lá estava, à nossa espera, a responsável pelo inusitado pedido de licenciamento. Era uma jovem de aspecto fulgurante, cabelos ruivos ondulantes a contrastar com uns enormes olhos negros, a pele de uma alvura imaculada… Os lábios carnudos, sensuais, húmidos e apelativos desencadearam em mim um ímpeto de aproximação difícil de refrear. Possuía dois pares de braços, um deles mais longo quarenta centímetros do que o outro, e em cada mão cresciam dez dedos. O corpo era muito elegante. Quando nos aproximámos para a cumprimentar reparei também que tinha, por baixo da orelha direita, um olho suplementar, tipo biotex, produzido com a tecnologia mais evoluída das proteínas, apenas acessível a cidadãos poderosos e com actividades específicas que exigem uma excelente discriminação visual.

Comecei por informá-la de que o Plano Anatómico do Cidadão não permitia alterações superiores a quinze anos na configuração da idade. Ela respondeu, calmamente, que conhecia perfeitamente o Plano e que compreendia a sua fundamentação, mas que existia um princípio geral no Código dos Direitos e Garantias que se sobrepunha e que permitia ultrapassar tal impedimento, quando estivesse em causa a sobrevivência individual. Concordámos que assim era, mas avisámo-la de que seria muito difícil encontrar, baseados no simples princípio da sobrevivência, argumentos tão claros e poderosos que pudessem fazer com que os decisores suspendessem a aplicação da norma legal. Então ela olhou-me com os seus grandes olhos negros e disse-me que não confiava em ninguém e que apenas poderia revelar o segredo que justificava o seu pedido de licenciamento a alguém de absoluta confiança. Depois dirigiu o olhar para a minha colega Isabel. Tentei serená-la, disse-lhe, com voz pausada e serena, que tratávamos todos os casos com absoluto profissionalismo, que estávamos indissoluvelmente ligados ao dever de confidencialidade.

Etna, assim se chama a mulher que deseja ser velha, começou por falar um pouco da sua vida. Nasceu em Itália, há cento e vinte e cinco anos. É música profissional, na Orquestra Harmónica, desempenhando o papel de piorganista. O piorgão, como sabemos, integra vários teclados, cada um como uma variedade de piano ou de órgão. Daí a necessidade de quatro mãos, duas para as teclas do piano e as outras duas para o órgão electrónico. Faz também concertos a solo com piano e violino. Conseguir um bom desempenho das quatro mãos em simultâneo exigiu uma configuração cerebral muito complexa e mais de uma vintena de anos de treino exaustivo, pois estavam em jogo movimentos muito precisos.

Perguntei-lhe porque é que estava em causa a sua sobrevivência. Ela hesitou alguns momentos e respondeu que, se a alteração não fosse autorizada, morreria num prazo de sessenta dias. Quando questionada sobre as provas que justificavam tal expectativa afirmou que viria mostrá-las dentro de dois dias. Concordámos em esperar que nos trouxesse os dados exigidos no prazo combinado. Se tal não acontecesse, o requerimento seria liminarmente indeferido.

Às dezasseis horas e trinta minutos aí de serviço com a Isabel e fomos ao DreamMaker, A sala 23 tinha poucos clientes. Entrámos, dirigimo-nos a uma cama de dois lugares, deitámo-nos e pedimos um sonho diáfano, para nos libertarmos do stress do dia. Coloquei a protecção contra os estímulos externos, senti um imediato torpor e adormeci.

Uma sensação de tranquilidade apoderou-se do meu cérebro, Caminhava entre luxuriantes jardins, como os que existiram na superfície da Terra antes da era catastrófica. Ao longe, estendia-se um imenso prado verde, a perder de vista. Ouvi o cantar dos pássaros. Depois, um violino sobrepôs-se e trouxe consigo um suave murmurejar de águas. Olhei, fascinado, a paisagem e caminhei por entre as flores com um sentimento de alegria pura e serena. Deitei-me de costas, no chão macio. Ao meu lado vieram deitar-se outras pessoas, ficando, também elas, a contemplar placidamente o céu. Uma delas era a minha colega Isabel. Olhámos um para o outro e sorrimos. Depois, deixei-me dissipar naquela natureza irreal, filha da tecnologia mais avançada. Os químicos reparadores fluíram no meu cérebro e um inefável bem-estar tomou conta do meu corpo. Perdi a noção do tempo, tornei-me uma névoa, que se estendeu intemporalmente pelas paisagens do sonho, produzindo boas sensações em todas as moléculas. Foi então que, subitamente, as feições de Etna, a jovem que queria ser velha, povoou o meu devir onírico. O rosto dela surgiu sobre mim, pedindo-me ajuda. Depois, subitamente, a face transformou-se, as feições envelheceram e a cabeça caiu-lhe, separada do corpo.

Acordei sobressaltado, interrompendo abruptamente o sonho. A meu lado, a Isabel também estava consciente, despertara em sintonia comigo. Perguntei-lhe se tinha visto o rosto de Etna. Disse-me que sim. Sonhara exactamente o mesmo que eu, como era esperado, visto tratar-se de um sonho conjunto. Um funcionário veio inteirar-se do que se passara, pois apenas tínhamos utilizado metade do tempo e a máquina dava sinais de disfunção. Expliquei-lhe, superficialmente, o que ocorrera. Pediu-nos desculpa pelo transtorno e ofereceu-nos um novo sonho. Recusámos a oferta, porque não tínhamos tempo para isso, mas agradecemos a avaliação rápida da ocorrência, para que não se repetisse.

Saímos do DreamMaker com uma sensação estranha, uma perplexidade incómoda perante o que nos tinha acontecido. Como era possível uma utente do Serviço aparecer no nosso sonho, que era da última geração, dado como totalmente imune a interferências neuronais. Trocámos algumas impressões e despedimo-nos. Dirigi-me, então, ao edifício da Câmara Municipal, para assistir a um debate sobre os limites e as potencialidades da transformação genética.

Percorri o caminho que levava à sala de conferências. Deparei com vários colegas dos Serviços. O Perdigão veio ter comigo. Começou a falar no seu tom baixo e lento, perguntando-me, de vez em quando, a opinião sobre algo, mas eu nunca percebia muito bem qual era o assunto. Retomava depois o monólogo, no ponto em que o tinha interrompido para colocar a questão. Que lógica interna é que o levava a pedir a opinião das pessoas se não estava minimamente interessado no que elas respondiam? No entanto, mantinha uma postura correcta, não interrompendo os destinatários do seu monocórdico discurso e dando a impressão ilusória de que estava muito curioso sobre aquilo que os outros opinavam.

— Então já viu isto? — Exclamou ele. — Os Capuchos querem aprovar uma norma contra a inovação. Acham que estamos a afastar-nos demasiado da natureza humana. Gostava que me dissessem o que é a natureza humana. Eu não sou partidário da mutação barata, sem finalidade legítima, mas também não sou um reaccionário que pensa que o progresso é mau. Não me dá alguma razão? Os Ajudas, pelo contrário, querem toda a liberdade para as configurações do corpo. E aqui andamos nós, desorientados entre dois extremos.

Continuou o solilóquio, mas eu comecei a ouvi-lo como um ruído de fundo, onde apenas sobressaíam algumas entoações a que eu sabia responder espontaneamente com sorrisos, gestos e assentimentos.

Aproximei-me de outros colegas. Trocámos alguns cumprimentos. As luzes anunciaram o início do debate. Aproveitei o facto de o Perdigão se ter interessado pelos ouvidos de outra pessoa para me dirigir a um dos lugares ainda vagos. Sentei-me. Foi então que intuí que ao meu lado esquerdo estava um vulto feminino que me olhava. Voltei-me, curioso por saber se era alguém conhecido. Para meu espanto, deparei-me com Etna, a jovem mulher que eu entrevistara nessa tarde e com quem sonhara no DreamMaker. Devo ter manifestado uma enorme surpresa, pois ela resolveu perguntar-me;

— Não esperava ver-me aqui?

Respondi-lhe que, de facto, tinha pensado toda a tarde nela e no insólito pedido de licenciamento que fizera e, por isso, estava muito admirado com a coincidência de a encontrar ali.

— Se soubesse toda a verdade não acharia o pedido insólito — disse-me ela. — Tenho a certeza de que tudo ficará mais claro para si e que compreenderá a razão que me leva a este extremo.

Calou-se, porque o meu amigo Santini acabara de se sentar ao meu lado direito.

— Falaremos depois — terminei eu, quase a segredar.

Olhei para o Santini, que me sorriu com malícia.

— Não me apresentas a senhora? — Perguntou-me em tom jocoso.

Franzi-lhe o sobrolho e dei-lhe uma cotovelada.

No palco do auditório foi dada a indicação ao primeiro orador para iniciar a comunicação. Tratava-se de um dos mais conhecidos adeptos dos Ajudas, defensores da liberdade das configurações orgânicas. Fez uma introdução histórica sobre a noção de património e sobre a ideia de que é necessário preservá-lo. Tratou-se, segundo ele, de um mecanismo de defesa utilizado pela antiga ideologia capitalista e burguesa para criar uma ideia de compensação pelos excessos cometidos. No meio de toda a impiedosa competição e ganância animalesca que conduziu ao desastre das grandes metrópoles, emergiam pequenos oásis de coisas do passado, para manter a crença de que nem tudo era volátil e instrumental. Os defensores do património e do ambiente eram uma espécie de ansiolíticos de uma sociedade fraca, incapaz de suportar a consciência de uma vertigem sem limites, de uma voragem insaciável das coisas por acontecer. Porém, tais estratagemas tranquilizadores não evitaram a implosão catastrófica do sistema, devido ao emaranhado virtual em que caiu e ao excesso de energia privada. A civilização tremeu e teve que reequacionar os equilíbrios entre o público e o privado, pois era disso que se tratava e não da ameaça da inovação. Esta só se torna nefasta quando está totalmente colocada ao serviço dos interesses gananciosos e não da vontade estética e do bem-estar social. O falhanço do velho sistema demonstra que a valorização do património, enquanto excesso de afecto pelo passado, não é mais do que uma má consciência das elites atacadas pela ganância e em nada contribui para um futuro equilibrado. Na verdade, a preservação do passado é impossível, apenas podemos guardar, periodicamente, algumas parcelas irrelevantes, as quais serão irremediavelmente dissipadas pela voragem do tempo. Zelar pelo património é, segundo o orador, lutar contra o inevitável. Por isso, tal como Judas renegou o passado e o presente em função do porvir, também os Ajudas apoiam o fluir incessante das coisas e a arte maravilhosa da mudança, mesmo quando aplicada à configuração humana. Impor limites à transformação das pessoas, com base na preservação da história, não tem qualquer justificação credível. Nada permanece, tudo segue irremediavelmente o rumo da novidade e não podemos conceber a existência do mundo sem essa perpétua alteração.

O auditório vibrou com os aplausos. O orador parecia ter muito mais de cinquenta por cento dos presentes a favor mas talvez isso não fosse verdade, talvez o impacto se devesse apenas ao facto de, entre os espectadores favoráveis aos Ajudas, existirem muitos com dois pares mãos. Ao meu lado, Etna também aplaudiu, com visível entusiasmo. Quanto a mim, mantive-me na expectativa, pois para alguém com o meu cargo não era sensato mostrar aprovação ou desaprovação pelas ideias de qualquer das perspectivas em confronto.

Em seguida tomou a palavra o Avô Hélder, um dos mais conhecidos apoiantes dos Capuchos. Começou por perguntar à assistência se não era importante o sentido da humanidade. Depois desenrolou uma longa cadeia de argumentos para concluir que esse sentido estava na própria construção que milhões de anos evolutivos tinham edificado. Como podemos pôr em causa, abalar esse grande monumento da natureza, que é o corpo humano, com todo o seu esplendor e limitações. Trata-se de história viva, de património inestimável que é necessário preservar. Somos anatomicamente perfeitos, porque foi esta anatomia, com todas as suas fragilidades biológicas, que nos proporcionou as verdadeiras ferramentas da superioridade humana. Foi devido a essas debilidades que nos tornámos o que somos e o que somos é tão insólito e surpreendente que é motivo de orgulho para todos os que tomam consciência desse facto. A nossa evolução deve ser cultural e não fisiológica. Ao modificarmos o corpo de forma tão rápida para superarmos, de modo biológico, os problemas do meio, estamos a correr um enorme risco leviano: colocámos de lado o trunfo que nos criou, a base do sucesso humano. Podemos, sem nos apercebermos disso, destruir os alicerces da espécie, o tesouro que o tempo moldou com uma espantosa segurança. Por isso é necessário resguardar o corpo e evoluir apenas na cultura, especialmente na tecnologia.

Desta vez Etna não manifestou qualquer apoio ao orador, pelo contrário, tornou bem clara a sua desaprovação. Reparou que eu estava a observá-la e exclamou:

— O conservadorismo irrita-me!

Sorri-lhe e voltei a concentrar-me nos oradores. Esgrimiram inúmeros argumentos, palavrosos e retóricos mas, na maior parte dos casos, sem grande impacto na assistência, a não ser nos que estavam ali com o propósito de apoiar uma das facções.

Quase no final da sessão aconteceu o discurso mais interessante da noite. Uma jovem mulher, de quem eu nunca ouvira falar, subiu a palco e desfiou, com voz assertiva e estimulante, algumas ideias que ainda não tinham sido tratadas pelos outros oradores. Falou da vida como um macrossistema, em que as espécies se adaptam continuamente. Até aqui nada de novo em relação à velha teoria evolucionista. Porém, segundo ela, existem duas formas de adaptação: a individual, que é visível nas diversas gerações e se relaciona com a superação das necessidades pelos diversos indivíduos dessa espécie e a vital, que não pode ser compreendida do ponto de vista dos indivíduos ma sim da cosmicidade da vida. Esta, enquanto metassistema, gera constantemente equilíbrios para compensar as diversas crises. Na história da evolução ocorreram momentos cruciais em que a energia vital escolheu um novo princípio de difusão, uma nova linhagem, por assim dizer. Atingimos, precisamente agora, um desses momentos em que as forças criadoras cósmicas da vida, para superar os desequilíbrios globais causados pela proliferação humana, de que resultou a extinção em massa de grande parte das espécies existentes no planeta, escolheram um novo ponto de partida para a diversidade. O Homem é esse ponto de partida, essa fonte dos múltiplos formatos da vida futura, quer na Terra quer em regiões afastadas do universo. Somos, segundo o que entendi do discurso, a origem de um novo sistema de espécies, iremos transformar-nos numa impressionante diversidade de formas de vida, adaptados aos meios mais hostis e às condições mais complexas. A humanidade é uma ponte entre dois níveis de vida: o planetário e o cósmico. O que podemos recear da novidade e da mudança? Um grego disse, há milhares de anos, que tudo se altera, nada permanece. Também nós, mamíferos primatas cerebrais, temos que seguir o rumo que nos alimenta e nos dá esperança e torna o futuro mais entusiasmante. Não existe opção, porque o fogo da vida reclama a nossa inteira disponibilidade para a mudança. É por isso que as cosmonaves que partem da Terra, com milhares de corajosos em busca de planetas distantes, onde poderão lançar as sementes da criatividade genética, numa viagem interminável, sem grande certeza de êxito, cumprem esse impulso profundo que anima a diáspora biológica. Mas não se trata de preservar o património genético humano, da espécie que ainda somos, mas sim de abandonar aquilo que nos prende às limitações do passado. No final das longas odisseias espaciais, essas criaturas arrojadas terão já perdido os velhos traços da sua humanidade, pouco restando nelas do arcaico símio que cumpriu o destino de semente de vida.

Foram estas, segundo entendi, as ideias centrais da comunicação da jovem mulher. Uma enorme salva de palmas culminou o seu final. Entre os que aplaudiram entusiasticamente estava Etna. Olhei para ela, cheio de curiosidade. Percebeu a minha atenção e sorriu, mais uma vez.

Foi então que aconteceu aquela reacção surpreendente, que me deixou desconcertado. O sorriso desapareceu-lhe da face, vi-a empalidecer e ganhar uma expressão sombria. Procurei seguir a focagem do seu olhar. Mais de metade da assistência ainda aplaudia o discurso sobre a necessidade de mudança. Porém, lá à frente, à direita do palco, reparei num indivíduo vestido de negro, com um aspecto perturbador, que olhava fixamente na nossa direcção. Etna levantou-se rapidamente, pediu desculpa às pessoas sentadas a seu lado e, sem se despedir de mim, abandonou apressadamente o auditório.

O último orador da noite era capucho. Falou da necessidade de estabelecer regras claras para determinar o que deve ser considerado como aspecto humano. Enunciou um vasto conjunto de características físicas que, segundo ele, têm que ser consideradas património da evolução humana. A cara é a parte mais valiosa. Por isso, embora sejam permitidas inúmeras alterações fisionómicas, a configuração global deve manter-se, porque é o traço distintivo da nossa identidade. Nenhuma alteração ou prótese pode ser autorizada pelas entidades competentes se desvirtuarem a aparência das feições com que a evolução dotou a nossa admirável espécie.

Não consegui prestar muita atenção aos pormenores da comunicação porque estava a pensar constantemente no estranho comportamento de Etna. Olhei várias vezes para o local onde tinha visto o indivíduo que, segundo parecia, tinha causado a reacção de fuga da jovem, mas não voltei a vê-lo. Percorri toda a assistência, pois encontrava-me num lugar elevado, mas não o detectei em nenhum local da sala.

O meu amigo Santini também tinha reparado na saída inesperada da nossa companheira. Perguntou-me o que acontecera. Falei-lhe do estranho indivíduo de negro. Contei-lhe, enquanto caminhávamos pela praça municipal, a coincidência de ter entrevistado Etna nessa tarde, de ter sonhado com ela e de a ter encontrado ali.

— Tem cuidado — disse-me ele. — Não te deixes enredar em situações menos claras. Lembra-te que o teu dever de imparcialidade exige que mantenhas a distância em relação aos requerentes dos teus serviços.

Garanti-lhe que estava consciente do problema e dos meus deveres profissionais. Continuámos a nossa conversa, sentados num dos bancos da praça.

O tecto mostrava a vastidão do céu estrelado, como ele seria observado se estivéssemos à superfície e não existissem as nuvens e as poeiras que impediam, quase permanentemente, a observação do firmamento. As percepções que ali temos são muito fiéis e resultam da versão mais actualizada do Sky-Projector, um simulador que fornece imagens celestes em tecnologia transparente. O efeito de profundidade das imagens é, de facto, óptimo, embora deva ter custado bom dinheiro aos munícipes, que contribuíram com os impostos que fortalecem o orçamento da autarquia.

Olhei para o relógio. Era já tarde. Os animais nocturnos começavam a rondar o casario, procurando uma oportunidade para entrar e conseguir algum calor ou mesmo algum alimento. Muitos deles entram na cidade para tentarem alimentar-se das proteínas de que são feitos muitos dos objectos da cultura humana, incluindo as paredes dos edifícios. É por isso que o município investiu num sistema muito eficaz de detecção e armadilhamento de intrusos, que são rapidamente devolvidos ao exterior do casario. Na verdade, a segurança tornou-se tão rigorosa que poucos são os que conseguem entrar. Grandes baratas, com cerca de cinquenta centímetros de comprimento, espreitam, de vez em quando, pelas redes dos respiradouros da praça. Algumas aproximam-se demasiado e recebem pequenos choques eléctricos, ao mesmo tempo que desencadeiam o lançamento de um odor repelente. Porém, estes animais estão constantemente a superar os níveis de tolerância aos estímulos desagradáveis. Além disso há sempre alguns que descobrem pequenas rupturas nos impedimentos e conseguem introduzir-se na urbe.

As últimas investigações revelaram um crescimento acelerado nestes insectos e noutras espécies. Há cem anos atrás as baratas maiores não ultrapassavam os vinte centímetros o que significa que, num século, quase triplicaram o tamanho. Entre os mamíferos, os ratos foram os que mais beneficiaram com as transformações do planeta e a proliferação dos insectos. Algumas espécies tornaram-se muito perigosas, devido ao seu porte e agressividade. Além de insectos, comem desperdícios da civilização humana, especialmente as proteínas sintéticas. As tentativas para eliminar os mais perigosos têm sido um fracasso e os municípios dizem já não ter capacidade financeira para desencadear um combate mais eficaz. Pedem o apoio do governo central da União. Têm ocorrido diversos ataques mortíferos a animais domésticos e a pessoas, especialmente crianças. Atacam em grupo e depois de iniciarem as acções agressivas e predatórias é muito difícil pará-los.

Despedi-me do Santini e comuniquei à minha cadeira que queria ir para casa. Estava uma noite quente, quase irrespirável. Tive que ligar o meu selector de oxigénio, incrustado no nariz, para permitir uma mistura mais rica, diminuindo a entrada da maior parte do dióxido de carbono. Cheguei ao meu prédio e desci ao segundo piso, falei com a porta e entrei e casa.

Reparei logo na presença da minha companheira preferida, Rosa, um nome que faz lembrar flores antigas de perfume intenso.

— Já cheguei há meia hora — disse-me ela.

Expliquei-lhe que não a esperava tão cedo e cumprimentei-a com um beijo comovido.

Conheço-a há trinta anos e tem sido uma amiga preciosa. A sua configuração feminina está em grande sintonia com a minha personalidade. Dizem-nos que não é normal duas pessoas partilharem a vida tão intensamente e durante tanto tempo. Perguntam-nos frequentemente o que fazemos para escapar à monotonia. A verdade é que não ficamos saturados um do outro e os pequenos conflitos que vamos tendo são fáceis de ultrapassar. Ficamos horas sem conta a trocar ideias e é como se tivéssemos o raro dom de estimular o prazer e a curiosidade um do outro.

Rosa tem uma aparência de trinta e cinco anos. Quando a conheci tinha vinte e cinco, mas o seu estatuto profissional exigiu que ficasse com um ar mais experiente e digno de confiança. Trabalha no CIIDNI, o Centro Internacional de Investigação e Desenvolvimento de Novas Inteligências. O seu departamento coordena num projecto com polvos invisíveis. Estes animais começaram a ser descobertos há cerca de vinte anos, devido à proliferação de submarinos comerciais e à sua tecnologia de detecção de objectos. O facto de esta espécie não ter sido conhecida há mais tempo deve-se à sua extraordinária inteligência e à capacidade para se tornar invisível ao olho humano. Além disso habita zonas muito profundas do oceano, fossas abissais que ainda hoje, mesmo com as tecnologias existentes, é muito dispendioso explorar. A alteração das características químicas da água e a acentuada diminuição da luz fez com que começasse a frequentar zonas mais próximas da superfície. Com o abandono da navegação por meio de navios, incapazes de suportar as tempestades súbitas e brutais, o transporte marítimo começou a recorrer exclusivamente a submarinos.

O primeiro polvo invisível conhecido ficou preso nas redes de um pequeno submersível piscatório de grande profundidade, usado para apanhar crustáceos. Rosa contou-me a maravilhosa experiência que tiveram no departamento quando, logo no primeiro contacto com o animal, depois de o tornarem visível com um spray especial, descobriram que podiam comunicar facilmente com ele através de vários tipos de codificação. Hermes, assim lhe chamaram, mostrou rapidamente as potencialidades dos seus oito cérebros, capazes de executar muitas tarefas em simultâneo. Durante muitos milénios os seres humanos acreditaram que apenas eles possuíam afectos e pensamentos complexos. As descobertas mais recentes vieram mostrar que isso é totalmente falso.

Rosa descreveu-me as novidades da sua relação com o polvo invisível. Os últimos avanços tecnológicos conseguiram produzir descodificadores muito rápidos para a linguagem mais utilizada pelo octópode: a dos pigmentos. Também conseguiram traduzir os infra-sons. A comunicação com a criatura marinha tornou-se mais fácil quando lhe foi prometido que poderia, dentro de algum tempo, regressar ao seu habitat, para junto da sua espécie. Tornou-se muito cooperante. As informações, no entanto, foram consideradas secretas pelos altos funcionários administrativos. É provável que o governo não queira cumprir a promessa e libertar o polvo. Porém, nos últimos tempos temos assistido a muitas manifestações de solidariedade para com ele.

A vida destas criaturas marinhas parece, ao mesmo tempo, simples e muito complexa. Alternam os períodos gregários com os de sobrevivência individual. A sua capacidade para aprender não parece estar muito dependente da experiência social. A aprendizagem, no primeiro ano de vida, é muito rica, embora não exista qualquer convívio com os elementos da sua espécie. Parece que os cérebros estão programados para se desenvolverem em função dos problemas do meio, a partir de um potencial criativo excelente e de uma enorme plasticidade. As competências que cada um desenvolve podem ser muito diferentes das dos outros. No entanto, nos seus períodos de convivência comunicam entre si as experiências mais significativas que tiveram. Juntam-se em grupos familiares extensos, que podem integrar cerca de oitenta indivíduos e cada um deles revela aos outros, numa espécie de auditório, o que de mais relevante lhe aconteceu durante a sua vivência solitária. Usam a pigmentação e a luz como base comunicacional, de tal modo que o corpo funciona como uma espécie de ecrã com páginas dinâmicas, reproduzindo as memórias cerebrais.

É desta forma que a espécie evolui equilibradamente. Cada polvo transita por várias famílias extensas diferentes, frequentando uma em cada período social. Isto significa que o número de interacções é impressionante. O que se verifica também é que nos casos em que um indivíduo se perde e passa um longo período sem experiência social não parece existir grande deficit na evolução da aprendizagem.

Quem imaginaria, há cinquenta anos, que estas criaturas extraordinárias habitavam as profundezas do mar, dominando o seu território através dos múltiplos recursos que possuem, incluindo a inteligência, a invisibilidade e competências defensivas e ofensivas invulgares. Quando ameaçados por grandes predadores podem, caso as técnicas de disfarce não resultem, disparar dardos venenosos de órgãos especiais existentes em cada um dos tentáculos. Esses dardos podem ferir mortalmente qualquer animal, por maior que seja.

Rosa mostrava-se entusiasmada com as descobertas recentes sobre os cefalópodes. Outras espécies, além do polvo invisível, demonstravam competências impressionantes, como se as alterações climáticas tivessem deflagrado comportamentos e características completamente novos. Talvez o programa genético tenha sido subitamente dirigido noutra direcção evolutiva. Uma espécie de lula, chamada lula caminhante, por usar os tentáculos fortes como membros locomotores, tem vindo a adaptar-se a andar em terra seca e a passar cada vez mais tempo fora de água, nas zonas litorais. Alimenta-se de vermes, crustáceos, artrópodes terrestres e insectos e esta rica alimentação parece ser-lhe muito favorável, pois o seu tamanho triplicou nos últimos vinte anos, atingindo, alguns dos exemplares, cerca de quinze quilos. Já existe quem imagine um planeta Terra lamacento e tormentoso dominado por grandes cefalópodes.

Jantámos num ambiente nostálgico, proporcionado pelo novo modelo de cozinha feelings24, com uma paisagem de fundo recriada a partir das imagens do século vinte. Um contexto rural, com árvores e animais já extintos, ribeiras calmas, céu azul e sol visível, como já não podemos observar, por causa da atmosfera, enevoada e tormentosa, que nos cobre e nos impede de ter essa relação íntima e criativa que acompanhou, durante milénios, a evolução da humanidade.

Avançamos no programa, até ao anoitecer. Recostámo-nos num sofá e ficámos a contemplar um céu divinamente estrelado, pulsando infinitude. Uma lua grande e serena pairava no céu virtual. Demos as mãos e sintonizámos os cérebros no mesmo canal de sensações. Deixámo-nos invadir pelo sentimento do sublime. Como éramos contraditórios, naquela paisagem programada! Esmagados pela imensidão cósmica e, em simultâneo, interiorizando aquela vastidão, tornando-a carne do nosso corpo, como se participássemos da alma daquela natureza universal intraduzível. Estávamos ali, rodeados por paredes de proteína sintética W23, imaginando-nos a céu aberto, numa paisagem de um tempo distante, como se ainda tivéssemos um cérebro primitivo e puro, que se aturdia e saciava com sensações do limitado corpo humano. Um tempo em que talvez a felicidade fosse mais acessível, estivesse ao alcance de um toque, de um olhar, de um ouvido atento ou de um simples odor.

Apenas há trezentos anos, estávamos num planeta calmo, cuja realidade material alimentava em nós um bem-estar sem artifícios. Era a natureza da Terra que nos estimulava directamente e não a espantosa parafernália de biomáquinas que nos rodeiam e em que nós cada vez mais nos transformamos. Gostava de me transportar para esse tempo e usufruir das sensações puramente humanas. Maravilhosamente constituídas a partir das necessidades animais e do grande jogo da vida e da morte, da cooperação e da competição. Como seriam os afectos da noite? O que sentiriam essas criaturas ainda tão cheias de animalidade, ao contemplar a queda de cristais de água, a que chamavam neve, ao observar a calma superfície azul de um oceano ainda navegável, ao desfrutar as verdadeiras cores da natureza e a multiplicidade dos odores que a terra produzia? Como seria escutar toda aquela variedade de animais já extintos, expressando-se na noite?

Rosa, que sintonizara o nosso neurofone, disse-me:

— Compreendo o que estás a pensar. Foi tão longo o caminho e em tão pouco tempo!

Parece incrível como o mundo se transformou e o nosso organismo se adaptou à tecnologia. Mas talvez o nosso cérebro primitivo ainda faça sentir a sua voz, ainda nos fale, sub-repticiamente, dessa ancestralidade em que os homens se sentiam simultaneamente frágeis e omnipotentes, sabiam que o grande oceano da vida podia, com as suas ondas imprevistas e indomáveis, abater e afundar irremediavelmente as suas existências mas, ao mesmo tempo, deixavam-se invadir pela ingénua e maravilhosa sensação de que constituíam o centro de toda a realidade, de que as estrelas, o espaço infinito, o mundo, a vida, as coisas inanimadas, as partículas e os eventos fluíam com a extraordinária missão de lhes apoiar a sobrevivência.

Rosa pediu-me para utilizarmos o exobrain. Liguei o conector e percebi imediatamente que ela queria usar o editor erótico, isto é, estava a preparar-nos para um programa sexual. Vi que tínhamos entrado em conexão. Percepcionei-lhe a expressão lasciva, os movimentos lúbricos. Era uma amante excepcional. Dominava, com perícia e criatividade, todos os percursos sinápticos do erotismo. Em perfeita sintonia de cérebros, os lábios engrandeceram e avermelharam-se, tomaram as cores e as texturas das cerejas húmidas, pareciam sair do rosto para se aproximarem de mim, num convite irrecusável ao contacto e ao roçar das mucosas, numa fricção quente e húmida. Ao mesmo tempo as pupilas dilatavam-se e enchiam-se de um brilho apelativo, de uma luz sedutora que agia sobre mim como se eu fosse uma mariposa de perfume nocturno mas de instinto luminoso . As sobrancelhas elevaram-se, numa pose simiesca de confiança e de convite. As faces enrubesceram e toda a pele do corpo puxou para si o calor interno, latejando e desnudando-se, aproximando-se da textura e do colorido das mucosas. Um fluxo torrencial de hormonas avassalou os meus lobos. Elevamo-nos bruscamente e pairámos, frente a frente. O seu corpo feminino dobrou-se para a retaguarda e os seios redondos, talosos, brilhantes e húmidos apontaram aos meus olhos dois mamilos rubros e intensos. Uma pulsão irrefreável tomou posse dos circuitos neuronais. Os corpos tocaram-se no ar, quentes como brasas, afastaram-se e voltaram ao contacto, deslizaram um no outro, esfregaram-se, sentiram os odores activos das secreções, enroscaram-se, subiram mais no espaço, levitando juntos, retesados pelo caudal do sangue ardente. As transições da aproximação e do afastamento proporcionaram uma excitação sobre-humana, que levou à polução intempestiva.

A sintonia orgâsmica foi esplêndida, deixou os tecidos abrasados e ofegantes, os corpos deitados lado a lado, contemplando o admirável céu estrelado, o espaço infinito, a vastidão.

Era sempre a Rosa que conduzia as sequências eróticas. Tornou-se uma especialista no domínio das potencialidades quase ilimitadas do exobrain. A sua imaginação e sensibilidade eram excelentes. A fantástica exuberância das sensações ocorridas nos nossos cérebros suplantava, em muito, a antiga prática sexual baseada no contacto físico dos corpos e na troca real de fluidos. Tais práticas foram proibidas em todo o mundo, há várias décadas, sendo as coimas muito pesadas para os transgressores. Porém, embora os seres humanos tenham tido, ao longo da história, um fascínio incontido pelos actos proibidos, a verdade é que, neste caso, isso não se verificou, excepto nalguns grupos underground, que recorrem a químicos muito poderosos para conseguirem tornar os impulsos genitais suficientemente fortes para garantir algum prazer real. Mesmo que a norma anti cópula não existisse, o acto sexual físico teria desaparecido dos costumes e dos vícios. A diferenciação dos sexos, que acompanhou a evolução da espécie, tornou-se muito ligeira. O formato natural mais generalizado é o andrógino, com leve inclinação para o feminino. As condições ambientais trouxeram a impotência viril e a esterilidade das mulheres. Por outro lado, a inutilidade do acto procriador, devido ao prolongamento da longevidade individual, também contribuiu para a redução dos comportamentos relativos à fornicação. Por mais que nos custe a aceitar, enquanto orgulhosos portadores de almas individuais, a verdade é que a sabedoria prática da espécie suplanta sempre a do indivíduo. As virtudes do saber agir são proporcionais ao alargamento dos grupos, do simples homem para a imensa natureza, passando pelas espécies, os géneros e a vida. Então, se tal coisa parece certa, qual o sentido da individuação? Que fazemos aqui, homens e indivíduos, entes vivos em geral, iludidos pela crença na decisão correta para nós, se a decisão correta é sempre para a vastidão da imensa e profunda natureza? Que jogo é este que nos ludibria continuamente e nos faz ter a necessidade de pensar como um para que o todo possa decidir?

Li, nas bases de dados sobre a literatura clássica, de um dos grandes impérios da história humana, o romano, que um dos mais célebres escritores desse tempo escreveu uma frase que ficou célebre durante milénios, e que era a seguinte: “Post coitum omne animal triste”. Esta frase latina queria dizer que o coito, como era designado o acto de introdução do órgão genital masculino no aparelho vaginal, tinha consequências sentimentais e psicológicas negativas. Parece que tais actos, embora fossem o culminar de um ímpeto pujante da natureza viva e produzissem uma incomparável experiência de êxtase na química encefálica, deixavam os homens mergulhados numa profunda tristeza, como se, acabado o entusiasmo do desvario carnal, tomassem consciência da cruel inutilidade do exercício fertilizador, como se o esgotamento trazido pela mobilização das energias pulsionais fizesse enfraquecer a visão optimista do mundo e trouxesse às consciências a realidade efémera das existências. Talvez os homens, e até os animais, se sentissem o objecto de uma ironia da natureza, pois o optimismo da projecção genética no futuro era também, numa outra perspectiva, mais intuída do que pensada, o reconhecimento da inevitabilidade da morte. Talvez o maior segredo de qualquer indivíduo esteja no facto de ele ser o modo de a natureza se concretizar em infinitos oximoros.

Actualmente, os recursos naturais não permitem o aumento demográfico e isso levou o governo a banir, salvo condições especiais, os nascimentos. Os que acontecem são licenciados, nos casos em que um dos progenitores ou um irmão morre e não é possível recuperá-lo para a vida. O mesmo é dizer que, com os avanços que a medicina e a tecnologia têm desenvolvido, essas excepções raramente ocorrem.

Os diversos aspectos que as pessoas tomam, incluindo os de género, resultam da formatação genética, protésica e estética, que estão cada vez mais ao alcance de todos. A utilização abusiva e caprichosa destas práticas tem levado o Município a formular normas muito rígidas. Todas as alterações fisiológicas significativas têm de ser licenciadas, existindo mecanismos de controlo sistemático, através dos sensores municipais e dos centros de fiscalização.

Quando é autorizado um nascimento, os Serviços Municipais comparticipam nos custos, com uma taxa que varia entre os sessenta e os oitenta por cento. Apenas a germinação com base em células de dois progenitores diferentes, de sexos diferentes ou não, pode atingir a comparticipação de oitenta por cento. Isto ainda assenta na velha crença ideológica de que a sexualidade é a forma de reprodução mais benéfica para a evolução das espécies.

Os novos úteros Life25 podem ser requeridos, com o respectivo serviço de apoio, e colocados em casa dos clientes, para que se consiga criar um vínculo mais forte entre o feto e os pais. Os bebés com este percurso raramente necessitam que a vinculação afectiva seja induzida através da afinação cerebral.

Adormeci a pensar na influência dos vínculos afectivos no desenvolvimento. Rosa, essa já se entregara a Hypnos e ao seu filho Morfeu. Agrada-me aplicar o vocabulário que aploudei para a minha prótese virtual da cultura clássica. As velhas civilizações pré-apocalípticas, milhares de anos anteriores aos cataclismos, para ser exacto, criaram conceitos maravilhosos para descrever e interpretar a realidade. O deus grego do sono, filho das trevas e irmão da morte, desligava o corpo dos homens para que repousassem e reparassem o espírito das mazelas da desgastante vigília, A sua planta preferida era a papoila, mas parece-me evidente que os seus filhos, os deuses oníricos, entre os quais Morfeu, utilizaram a planta do pai para tornar o sono mais criativo do que a própria vigília, fazendo os cérebros humanos viajar por incontáveis extravagâncias e, talvez por isso, eles tenham desenvolvido a consciência construtora das civilizações. Possa a realidade aprender com os estados oníricos! E mimá-los!

Tínhamos combinado, eu e a minha amada, manter um sono totalmente natural, sem qualquer programação onírica. Apenas usamos algumas sensações clássicas, incluindo as de colchão flexível, lençóis de seda e almofadas macias. As impressões sensoriais eram simuladas por uma rotina sináptica colocada no exobrain.

Sonhei que estava numa vasta planície, com um panorama verde a perder de vista. Era uma paisagem que já não existe, igual a muitas que decoraram a Terra há trezentos anos. De repente, senti-me cair e fiquei estendido entre a vegetação. Rastejei por entre ela, como uma serpente, e ergui-me de novo. Ao meu lado estava um touro, roçando com os cascos na terra e levantando uma nuvem de poeira. O quadrúpede falou comigo, mas não consegui entender o que dizia. Tinha um ar assustado, todavia continuava a ruminar. Foi então que reparei num leão que se aproximava, de peito musculado e orgulhoso, a juba enorme e dourada emoldurando uns olhos firmes e cruéis. O pavor tomou conta de mim. Deitei-me entre as ervas e sustive a respiração. Imaginei-me devorado pelo felídeo, triturado pelos maxilares poderosos e instintivos, imunes à compaixão. No entanto, o leão não se aproximou, ficou na companhia do touro. Não resisti à tentação de ver o que acontecia. Dominei o medo e ergui-me. Os dois animais não se incomodaram com a minha presença, pois estavam concentrados a olhar para o céu azul, onde pairava um pássaro enorme, que me pareceu ser uma águia. De súbito, esta começou a picar velozmente na minha direcção. O leão e o touro olharam para mim e avisaram-me para fugir. Comecei a movimentar-me e senti que o meu corpo era longo e não tinha membros, deslizava por entre a vegetação, como se fosse uma serpente. A águia aproximava-se cada vez mais, estava quase a alcançar-me. Quis gritar por socorro mas não emiti qualquer som, completamente emudecido pela angústia. Abri desesperadamente a boca e expulsei o ar, mas continuei mudo e sem conseguir afastar-me da águia. No pavor do sonho, olhei uma última vez para a ave, imaginando serem os meus últimos momentos. E então reparei que ela tinha pousado, enorme e poderosa, nos longos ramos de uma árvore. Olhava para mim com uma cara amistosa e sorria. E o rosto era o de Etna, a requerente dos meus préstimos e minha companheira de auditório.

Acordei sobressaltado. Depois, não querendo ser mais perturbado por divagações oníricas descontroladas, liguei-me ao exobrain, num programa suave. Antes de adormecer ordenei-lhe que traduzisse rapidamente os meus pensamentos e as experiências do dia para este diário, de acordo com o meu estilo verbal.